Profetas da chuva se adaptam à pandemia para manter tradição viva

A pandemia do novo coronavírus impôs um redesenho às tradições populares, mas não foi capaz de barrá-las. No Sertão cearense, janeiro é época de analisar os sinais da natureza e, através deles, surge a previsão para a próxima quadra chuvosa (fevereiro a maio). Esse ritual é realizado pelos guardadores de experiências de chuva. Contudo, em algumas localidades, o encontro, historicamente presencial, foi suplantado para o universal virtual. É a tecnologia aliada ao sertanejo na manutenção de uma tradição secular.

Nesta sexta-feira (8) à noite, em Tauá, será realizado de forma remota o V Encontro dos Profetas da Chuva do Sertão dos Inhamuns. O evento é promovido em articulação dos campi de Boa Viagem, Crateús e Tauá do Instituto Federal de Educação do Ceará (IFCE), em parceria com a Universidade Estadual do Ceará (Uece) e terá transmissão, a partir das 18h30, pelo canal do IFCE Tauá no YouTube.

Na última quarta, foi a vez de os guardadores da cidade de Orós, na região Centro-Sul, se encontrarem para trocarem experiências. Virtualmente ou de forma presencial, há consenso quanto a expectativa para este ano: chuvas acima ou dentro da média.

 

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Foto: Honório Barbosa

 

Essa previsão coaduna com o primeiro prognóstico realizado pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e pelo Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Cptec/Inpe). Ambas agências preveem para a parte norte do Ceará chuvas acima da média e para o sul precipitações dentro da normalidade para o trimestre – janeiro a março.

Tradição

O professor e diretor-geral do IFCE de Boa Viagem, João Paulo Arcelino, destaca a importância da tradição recordando que “durante muito tempo não se tinha acesso às informações meteorológicas, então o homem se valia da natureza para avaliar como deveria ser o seu plantio”. Ele ressalta que as observações empíricas da natureza se tornaram “um mapa primordial de sobrevivência para os agricultores e suas famílias“.

Dentre os sinais avaliados pelo sertanejo, estão a observação do comportamento das formigas e cupim, a disposição dos ventos, nuvens, lua cheia e estrela d’alva e, ainda, experimentos realizados com pedras de sal.

Diferente do encontro de Tauá, o de Orós já é realizado initerruptamente há 18 anos. O agricultor e poeta, José Santana, é um dos que participam do momento deste seu início. Ele prevê que neste ano “vai chover todos os meses” embora com volumes mais contidos e bem distribuídos.

O encontro dos profetas da chuva de Quixadá, o mais tradicional do Estado, acontece no próximo dia 23. Devido à pandemia, o encontro terá público reduzido pela metade.

Hélder Cortez, um dos fundadores do encontro, explica que participarão apenas 12 guardadores. Ele antecipou a análise dos sertanejos. “A maioria apresentou previsões de uma quadra chuvosa regular para boa e que o acumulado será entre 600mm e 800mm”, pontuou.

Conhecimento

O jovem produtor Hamilton Alcântara, herdou do pai, Antônio Alcântara, os ensinamentos de observar o vento Aracati. “Se vier forte em julho, agosto e setembro teremos chuva cedo e boa”, ensina. “Pelo que vi teremos um inverno bom, mas a partir de março”. Alcântara não recomenda plantações em janeiro e fevereiro.

O agricultor Chico Vitor descreve outra forma de analisar os sinais da natureza. “A gente aprendeu essa tradição com nossos avós. E uma das observações que fazemos é pela forma com que o João-de-barro constrói sua casa. Neste ano está para o poente e segundo diz as tradições, isso indica boas chuvas”.

Contudo, Hélder Cortez explica que as previsões valem apenas para aquela região onde o profeta observou os sinais da natureza. “Uma experiência feita em Tauá não serve aqui para Orós e o contrário também é válido”, frisa.

DN

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