Coronel Gondim diz que PM cearense virou partido político e que a bandidagem perdeu o medo e respeito pela Polícia

Em entrevista  ao programa “Barra Pesada”, exibido nesta quinta-feira (18), pela TV Jangadeiro, em entrevista concedida ao repórter Nilson Fagata, o coronel da Polícia Militar e ex-chefe do grupo de elite Comando de Operações Especiais (COE), Francisco Horácio Marques Gondim, deu um depoimento contundente sobre o atual quadro de falência da Segurança Pública no Ceará. Veja a entrevista:

Repórter – O  senhor, como cidadão, está com medo da violência no Ceará, com tantas mortes?

Gondim  – Minha visão é diferente do cidadão comum. Fui um cidadão que passei  40 anos na Polícia Militar, um cidadão adestrado para atirar e condicionado psicologicamente a reagir em determinadas situações. Vejo  o seguinte; com o desarmamento do cidadão comum a criminalidade aumentou.  Há uma diferença entre o cidadão Gondim e o cidadão comum que não tem direito a andar armado.

Repórter – Há algum tempo eu estive aqui e ao lhe entrevistar o senhor disse: “olhe lá, não se assuste se daqui a quatro anos, não estiverem matando dez por dia”. Como o Senhor fez uma previsão tão em cima?

Gondim – Naquela época, eu já falava sobre a falência do Estado de Direito, o descaso das autoridades, a falência do Judiciário, a falência do Legislativo e a falência do Executivo. Está tudo falido. Para reconstruir o Estado de Direito, teremos que pegar pesado, porque senão a bandidagem vai  tomar de conta da sociedade.

Repórter – O senhor acredita que hoje a Polícia Militar virou partido político?

Gondim – Perfeitamente. Não se conversa polícia, se conversa política. Acabou-se aquela vontade de se fazer polícia. Simplesmente nós temos uma plêiade de funcionários públicos.

Repórter –  O senhor esteve à frente do COE (Comando de Operações Especiais) durante quatro anos. Quantos policiais foram mortos nesta época?

Gondim – Somente dois.

Repórter – Hoje, nós já temos quatro policiais mortos apenas  desde o começo do ano.  Para o senhor, assistindo a tudo isso, dói no seu coração ver tantos colegas sendo assassinados?

Gondim – Vejo com muita tristeza. Quando o corneteiro toca o silêncio (homenagem na hora do sepultamento)  fico de cortar o coração.

Repórter – O que o Senhor pensa de tudo isso?

Gondim – Você só vê o Legislativo legislar para o vagabundo. Você só vê fazerem  lei para abrandar pena. Você só vê lei para proibir o pai de educar o filho, é a Lei da Palmada.  São coisas que nós “avançamos” tanto, e terminou a sociedade perdendo.

Repórter – Nunca a Polícia foi tão respeitada no Ceará como o COE.  Hoje, quando a Polícia chega, o bandido vai pra cima. Ele perdeu o medo da Polícia?

Gondim – Perdeu o respeito e perdeu o medo, por culpa da própria sociedade, por culpa dos Direitos Humanos, por culpa daqueles legisladores que trabalham só para um grupelho de pessoas.

Repórter – Eestamos perdendo a guerra para o tráfico?

Gondim – Ainda não.  Agora, urgentemente, temos que cuidar disso com mão-de-ferro. Não só na macrocriminalidade, mas também na microcriminalidade, pois quem está matando é o vagabundo pé-de-chinelo.

Repórter – Existe uma distância entre a Polícia Civil e a Polícia Militar?

Gondim – Não. Vivi dentro da Secretaria da Segurança Pública. Sou um apaixonado pela Polícia Civil.  Fico constrangido  ao ver que a Polícia Civil hoje está sucateada. O general Assis Bezerra (ex-secretário da Segurança Pública do Ceará na época do COE, nos anos 90), deixou a Polícia Civil com 3.500 homens.  Hoje, talvez,  não chegue a dois mil.

Repórter – E o que fazer?

Gondim – Eu diria, uma tolerância zero para a bandidagem pesada.

Repórter – E o que fazer daqui pra frente?  O cidadão vai continuar acuado?

Gondim – Eu acho que já estamos quase no limite. As autoridades vão ter que dar a resposta. O  jogo vai ter que virar urgentemente. Não podemos viver à mercê do Estado criminoso.

Por FERNANDO RIBEIRO

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